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Começo com uma obviedade, mas às vezes elas são necessárias: jornalistas ou críticos de cinema precisam dar motivos pelos quais os filmes são interessantes ou não. Digo isto depois de constatar que a avalanche de marketing de A Odisseia, de Christopher Nolan, terminou por afastar gente do cinema antes mesmo da estreia. Teve a onda “não vi e não gostei”, teve piada com os “spoilers” de uma obra literária de mais de 3 mil anos e, ainda, aquele excesso de detalhes sobre os aspectos técnicos da filmagem.

Pois bem. O 14º filme dirigido por Nolan é um convite à leitura de A Odisseia, um dos clássicos da literatura ocidental. Uma sedução, com cenas majoritariamente externas e cenários exuberantes, protagonizada por atores em grandes papeis. E é, também, uma homenagem da arte cinematográfica à literária. 

Não basta contar como Ulisses foi envolvido por Calipso, por exemplo. É preciso demonstrar, em cores, movimentos e alusões às viagens de flor de lótus. É pouco evocar o canto das sereias. Sem exibi-las, o filme sugere com habilidade o que é uma crise de abstinência. E sem usar uma orquestra tradicional, mas por meio de instrumentos antigos reconstruídos, a trilha sonora de Ludwig Göransson nos leva a lugares que nunca imaginaríamos visitar. 

O resultado de tantas sugestões visuais e sonoras não é excessivo, por incrível que pareça. O filme tem 173 minutos preenchidos com o equilíbrio necessário para não cansar nem entediar. Um reparo poderia ser feito, até, no roteiro: não caberiam ali outras aventuras de Ulisses? 

Nolan retoma, com este filme, seu histórico de bom contador de histórias. E de bom diretor de cena. Mesmo que com menos tempo de tela, os trabalhos de gente como Elliot Page e Lupita Nyong’o não saem diminuídos. São, aliás, requintados. E eles nos mostram, mais uma vez, que o cinema é uma arte coletiva por excelência. Chancelar um filme como excelente ou péssimo pelo diretor é uma ideia, no mínimo, equivocada. Afinal, nem mesmo a literatura de Homero foi feita por só um homem. Ou será que foi?

O 14º filme dirigido por Nolan é um convite à leitura de A Odisseia